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Humanização hospitalar: os desafios da desospitalização

Ao contrário do que muitos pensam, o hospital nem sempre é o lugar mais adequado para tratamentos de saúde ou para a recuperação completa do indivíduo, já que passar um longo período internado pode aumentar os riscos de infecções e outras complicações. Até pouco tempo atrás, a desospitalização, ou seja, redução do tempo de internação para dar continuidade ao tratamento fora do hospital, mas com todo o suporte necessário, era encarada de forma negativa. Hoje o conceito já está sendo discutido pelos profissionais do setor, ressaltando a importância da humanização hospitalar.

“No hospital, as rotinas de horário de sono, banho e refeições são fixas e diferentes daquelas que o paciente está acostumado. Além disso, é um local no qual se tem contato com variados tipos de pacientes e doenças, gerando ansiedade e estresse”, explica Cristiane Lopes, professora do curso de biomedicina da Universidade Metodista de São Paulo. Segundo a especialista, quando o risco à segurança do paciente é maior em casa do que no hospital, a internação é importante. Mas, quando a permanência se prolonga além do necessário, os riscos de infecção, quedas e outros eventos são maiores. “O hospital, que passa a ser responsável pelo paciente, acaba ficando em risco também - esse é um sinal de que a alta deve ser considerada”, ressalta.

Entre os principais motivadores da internação de longa permanência estão o modelo de remuneração atual, a recusa da desospitalização por parte das famílias, a dificuldade no relacionamento com as fontes pagadoras, a demora no processo de liberação de convênios e, principalmente, a ineficiência na adoção de tecnologias. Além disso, a falta de empoderamento do indivíduo, que não tem suas informações disponíveis, por exemplo, em um Prontuário Eletrônico do Paciente (PEP) pessoal, e a cultura pouco favorável à desospitalização, fazem com a que internação ainda seja a principal saída. “Temos um sistema hospitalocêntrico, que também é pouco integrado. O atual modelo de remuneração ainda incentiva os prestadores de serviços a internar o paciente e fazer com que ele seja tratado, e não cuidado”, ressalta Daniel Greca, diretor de Saúde da KPMG.

Segundo o especialista, se uma parte dos indivíduos fosse tratada fora do hospital, os custos diminuíram e a qualidade da assistência aumentaria. A desospitalização aliada à tecnologia contribui para que os profissionais de Saúde possam fazer um trabalho muito mais efetivo no cuidado. Para o paciente, o resultado é a garantia de que voltará menos ao hospital. Já para a instituição, os riscos de eventos adversos, como infecções e outras complicações, diminuem consideravelmente. E, para a operadora de Saúde, quanto menor o tempo que o beneficiário passa internado, menores são os custos.

“Com a telemedicina e o histórico de dados do paciente, por exemplo, muitas triagens e orientações poderiam ser feitas a distância, sem necessidade de internação. Isso serve tanto para o cidadão que já teve alta e precisa de acompanhamento quanto para aquele que depende da assistência básica para não ser hospitalizado”, explica. Entretanto, a teleconsulta ainda é proibida no Brasil. A resolução nº1.643/2002 do CFM (Conselho Federal de Medicina) restringe consultas médicas por telefone ou internet diretamente entre profissionais de Saúde e pacientes. Elas são permitidas apenas se houver um profissional em ambas as pontas do canal de comunicação.

Mesmo diante disso, as longas internações têm sido cada vez menos incentivadas. “Para combatê-las, muitos hospitais estão adotando programas de atendimento domiciliar ou administração de medicamentos em casa com a dupla finalidade: diminuir custos e riscos ao paciente”, explica Cristiane, da Metodista. Além disso, o aprimoramento do atendimento primário, que visa a prevenir doenças e acompanhar a saúde de forma regional, faz com que, aos poucos, os pacientes passem menos tempo internados.

Os hospitais de longa permanência e de transição também são alternativas, inclusive no Brasil. Os de longa permanência são para idosos ou aqueles que, pelas condições clínicas, passarão mais tempo internados. “Eles costumam ter uma estrutura mais simples, já que são dedicados a tratamentos específicos. Não precisam de um centro de alta complexidade. Assim, os custos são menores e a eficiência não é afetada”, ressalta Greca. O mesmo vale para hospitais de transição, nos quais o paciente passa de um tratamento mais complexo para um mais simples, e também para os centros cirúrgicos de baixa complexidade, dedicados a cirurgias com rápida recuperação.

Tanto no Brasil quanto em outros países, como Estados Unidos e Canadá, processos de desospitalização estão em andamento, mas ainda há um longo caminho para percorrer. A mudança no modelo de remuneração tradicional, que tem por base o pagamento por serviço executado - o fee for service - para um que leve em consideração a performance ligada à qualidade do atendimento ao paciente, é um passo importante. “A revolução é no mundo todo. Não adianta apenas ser um hospital digital, é preciso ter uma mudança de cultura e processos. Os países ainda estão entendendo isso”, conclui Greca.